21/06/2010

- Lídia , venha aqui que tenho um presente para ti. – a mãe grita assim que abre a porta de casa, se atrapalhando com um imenso pacote debaixo do braço.

- Já vou, mamãe.

E lá vinha ela correndo escada abaixo, mal podia conter a curiosidade e alegria. Adorava ganhar presentes, ainda mais assim, de surpresa e um pacote grande. Era pesado, não conseguia carregar sozinha, seus braços delicados não tinham força, braços de uma menina de 14 anos que mais parece uma criança de 12. Pequenina, das pernas finas e desajeitada, de cabelos curtos, bem pretos que viviam bagunçados, olhos tão escuros que pareciam buracos sem fim e lábios de um tom rosado que dava para sentir o gosto doce só de olhar.

- Que é isso , mãe? – os olhos da menina brilhavam perto daquele embrulho rosa amarrado com uma fita dourada que fazia um grande laço na parte da frente do embrulho. O presente era do um pouco menor que Lídia e ela adorava isso.

- Abra, meu amor.

E começou desfazendo o laço dourado, não queria estragar a fita, ela adorava fitas. Depois pedaços de papel rosa começaram a voar e seus olhos viram aquele espelho que podia refletir seus corpinho por inteiro. Era feito de prata, com detalhes estranhos , como símbolos desconhecidos, antigos , que não pareciam significar nada.

- É lindo, mãe. Deve ter custado uma fortuna.

- Por esse sorriso eu gasto o que for preciso. Agora vem, já está na hora de dormir. – fez um esforço que já fazia desde quando comprou o espelho, dessa vez para levá-lo ao quarto da princesa e colocá-la logo para dormir.

O espelho era antigo e parecia raridade, ela o encontrou por acaso quando voltava para casa depois de Ter ido comprar cigarros. Era noite, ela não esperava encontrar ninguém vendendo nada na rua aquela hora, muito menos uma peça tão valiosa quanto aquela. Poderia Ter gasto uma fortuna no espelho, mas não, a velha que vendia a peça pediu apenas um colar que estava usando no momento. Um colar velho foi o preço do espelho que devia valer mais de mil daquele colar. Porque um colar velho? Se ao menos fosse valioso...

- Boa noite, minha princesa. Durma com os anjos.

- Boa noite.

Assim que a mãe fechou a porta, Lídia saltou da cama, acendeu seu abajur e foi correndo se olhar no espelho. E ficou lá, durante alguns minutos fazendo poses, brincando de importante diante daquele espelho.

Um luz baixa começou a escapar da moldura do espelho e Lídia ficou olhando, vidrada e com medo, sem saber o que fazer. Mas que... luz é essa?

Ela sumiu no espelho, seu reflexo havia se transformado em um imenso negro com pouca névoa rasteira e dançantes. Seu dedinho foi se aproximando do espelho que não era mais espelho e quando o tocou , ela não tocou, não sentiu, atravessou e foi sugada de uma vez para dentro daquela estranha moldura de prata. O espelho havia sumido para Lídia, assim como a moldura. E Lídia sumiu para o quarto, assim como o espelho.

Que lugar é esse?

– Mãe? Mamãe! Onde você tá? Mãe? - implorava a menina com os olhos cheios de lágrimas. Estava tremendo tanto que não conseguia manter-se em pé , e soluçava e chorava sem parar. – Mãe, por favor!

– Quem está gritando? Tem gente querendo dormir aqui e é impossível com essa barulheira toda!

– Quem está aí? – Lídia gritou como se estivesse querendo expulsar alguém dali e ao mesmo tempo sentia-se aliviada por não estar sozinha, mesmo que isso não significasse estar em segurança. Não conseguia ver nada com toda aquela escuridão e névoa cinza dançando em sua frente.

– Ora, ora , ora! Mas que bela menina. – um vulto se aproximou rapidamente da menina que empalidecia cada vez mais. O vulto tinha uma voz metálica e fina que chegava a doer o estômago só de ouvir. – Qual seu nome , garotinha?

– É...é...Li...Lídia. Que... quem é v.. você? – por mais que tentasse ela não conseguia parar de tremer, não conseguia falar direito.

– Um amigo, novo amigo. Venha comigo, vou te apresentar umas pessoas. – o vulto puxou a garotinha pelo fico braço e saiu correndo tão rápido que Lídia teve a ligeira impressão de que estava voado, se não estava realmente.

A medida que iam seguindo uma luz começava a clarear o lugar. Lídia pôde reparar que estava em um estranho jardim florido apenas com jasmins bastantes perfumados, tanto que quase sufoca. Pôde notar também que o vulto que a arrastava era um homenzinho – se é que pode chamá-lo de homem- pequeno de cor estranha, como um azul celeste bem claro, e usava roupas laranjas e um chapéu pontudo laranja. Tinha uma expressão engraçada e medonha, mas não pôde julgar direito, ela só conseguia ver metade de seu rosto.

- Qual o problema, mocinha? – ele havia notado que estava sendo observado e quando virou o rosto para Lídia levou um susto que fez com que a menina caísse de seus braços e foi direto ao chão. – Eita... ops!

Espatifada no chão , a garota não entendia como podia Ter sobrevivido a um tombo daqueles. E nem podia entender como não sentia dor alguma. Olhou para cima e viu que o homenzinho voava em sua direção, quando se aproximou o suficiente para perceber suas feições, ficou horrorizada e começou a gritar.

- Que há, menina? Pare! Pare de gritar! Você vai acordar o Mestre. – tapando grosseiramente a boca da menina fazendo com que ela só conseguisse soltar gritos abafados. – Qual teu problema? Cale-se.

Ele tinha o olho esquerdo amarelo tão claro que ofuscava a vista de quem olhasse direto , o direito não tinha , era um buraco onde pedaços de carne podre e fétida tentavam fugir mas só soltavam um líquido verde e gosmento. Lídia não agüentou e vomitou de nojo, vomitou tanto que desmaiou quando tentou levantar-se.



“O que vamos fazer então, mestre?”

Onde... mas que... mamãe?

“...carne sim, mas não é...matar?...”

Dor.... Que está ... acontecendo?

- Menininha! – cantou o pequeno homem esquisito em seu ouvido para que despertasse de uma vez. – Ei, menininha, acorda, o mestre quer falar.

Lídia sentou-se no chão e com muito esforço ergueu a cabeça e olhou o que ele chamava de mestre mas só via um borrão, via tudo embaçado.

- Levem-na daqui e façam com que fique forte, dê o que comer e beber e depois vistam-na para que possa descer para o jantar.

Fizeram como ordenou o mestre e a menina nunca comera tão bem, nunca bebera tão bem e nunca se sentira tão forte. Tanto que achava até que havia engordado ligeiramente, sentia-se bem.

- O mestre está aguardando a senhorita para o jantar. – Disse uma mulher que parara na porta do aposento onde a menina escolhera sua roupa, que era muito diferente, quase não tinha pano para cobrir seu corpo, mas achou melhor não contestar, estava confusa mas sabia que não era educado reclamar de nada num lugar onde nada sabia ou conhecia. A mulher tinha duas estacas de metal no lugar dos braços e seu cabelo parecia estar queimado , haviam pequenos tufos de cabelo espalhados pelo couro cabeludo que parecia uma enorme cicatriz de queimadura.

Desceu as escadas e foi direto ao salão de jantar. Tinha a impressão de que estava em um castelo, só que mais horripilante do que aqueles das princesas dos contos de fadas que sua mãe contava. Que saudade ela sentia da mãe.

Quando entrou no salão a imensa porta se fechou violentamente atrás dela e a luz diminuiu. Vários homenzinhos deformados e sempre com pedaços do corpo faltando ou trocados por outras coisas, a agarraram e levaram para a grande mesa que ficava no centro do salão e a marraram pelos braços e pernas. Ela se debatia e gritava, mas de nada adiantava. Foi quando um homem grande de mais de 2 metros de altura, usando roupas douradas com uma capa preta que aprecia veludo , entrou por outra porta e sentou na grande cadeira que ficava na cabeceira da mesa, de forma com que a cabeça de Lídia ficasse virada para ele e ela só conseguia ver o que seus olhos permitiam daquele ângulo.

- Uma espécie nova para degustar. Estou ansioso por isso! – disse o homem sorrindo maliciosamente com os olhos arregalados. – Faremos o seguinte, comerei apenas as partes que me parecem mais apetitosas, se você sobreviver eu troco por outras coisas , se couberem, claro. Se não, fica para o jantar.

- Você não faria... não pode... não vai me comer... não acredito... não

- Alguém cala a boca dessa pirralha, sim? Não gosto de falatório nas refeições, e estou faminto. Fico furioso quando faminto!

Dois homenzinhos amordaçaram a menina que não conseguia soltar nem um grito abafado, por algo estranho que havia naquela mordaça.

O que chamavam de mestre levantou-se e foi para o lado da menina que suava gelado e chorava de desespero.

- Bom apetite!

Foi quando caiu de boca no braço da menina e arrancou um pedaço e mastigou com a boca lambuzada de sangue. Lídia gritava e chorava e gritava, não sabia se estava sentindo mais dor, medo ou saudade da mãe.

- Eca, mas que carne mais sem graça! Achei que fosse mais picante. – Disse cuspindo um grande pedaço do braço da garota. – Não quero mais. – virou-se para a menina – Sabe, você não teve sorte. Quando não gosto de uma comida eu não costumo jogar fora, tem muita gente passando fome por ai. Sabe o que eu faço? – Lídia estava estática , olhando fixamente para o homem. – Hein? – fez que não com a cabeça. – Eu dou o resto pros animais. Podem comer, meu queridos!

Neste instante milhares de homenzinhos avançaram na pequena Lídia , devorando cada pedaço do seu corpinho e ela gritava de medo. Tanto , tanto...

- Lídia, minha princesa! Que foi? Lídia, acorda, meu amor!

- Mãe! Elesestavammedevorandomecomendoeeunãopodiafazernadaeutavamorrendoelesnãoparavamdemastigare...

- Calma, calma, foi só um sonho...

Lídia livrou-se dos braços da mãe e foi correndo em direção ao espelho que ainda não tinha reflexo, pegou seu abajur de boneca que ficava numa mesinha ao lado do espelho e começou a bater com força, pedaços de vidro correram pelo chão do quarto e sua mãe não sabia o que fazer. Olhava para Lídia com um nojo que a menina começou a tremer quando percebeu que sua mãe a olhava.

- O que foi, mãe? – virou-se para a mãe – Qual o problema?

Um grito agudo e desesperado fugiu da boca da mãe e Lídia olhou seu reflexo num pedaço de espelho que estava no chão. Gritou horrorizada quando viu que não tinha mais pele alguma e pedaços de carne estavam faltando. Seus dedos começaram a cair, depois as mãos, os braços, cabeça, tudo despencou no chão e só restaram ossos.

- Que droga, era pra ser você aquele monte de ossos ali no chão. – a velha que havia dado o espelho apareceu no canto do quarto segurando o colar velho que a mãe havia trocado pelo espelho. – Mas você quis dá-lo a sua filha, paciência. O colar é a proteção, você não o tem mais, talvez o espelho se refaça e volte a sentir fome. Paciência... – a velha sumiu lentamente meio a uma névoa cinza que tomou conta do quarto.

Tudo se apagou diante da mãe de Lídia, tudo se apagou para Lídia.

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